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Pesquisadores avaliam se decoada pode impactar estoque de peixes


Evento natural no Pantanal e reflexo de um ciclo que representa renovação e fertilização do terreno pantaneiro, a decoada está recebendo monitoramento especial neste ano. Por conta dos dois últimos períodos de seca mais vigorosa, alguns pesquisadores temem que o fenômeno cause impacto no estoque de peixes.



Há um acompanhamento mais específico em algumas áreas, como é o caso do Amolar, região considerada ainda muito selvagem e preservada do bioma.


A decoada, ou dequada, vem sendo estudada há mais de 20 anos por se tratar de um processo com impacto em grande extensão do Rio Paraguai e que resulta na mortandade de peixes ao reduzir a quantidade de oxigênio da água.


Em 2020 e 2021, a estiagem alterou significativamente o ciclo de cheia em todo o bioma. Aliado a essa condição, os incêndios registrados nesses anos, principalmente em 2020, que atingiu em torno de 30% do Pantanal, ainda estão sendo analisados para se identificar se há impactos perenes gerados na fauna e na flora.


Conforme especialistas, não é adequado cravar que nos dois últimos anos o processo de renovação promovido pela decoada ficou sem ocorrer. Ele, porém, não foi observado com intensidade ao longo de trechos tradicionais onde era comum o evento.


Quando ocorre esse fenômeno, a água do Rio Paraguai torna-se mais escura e há um odor forte. Nas proximidades de Corumbá, onde o rio corta boa extensão da cidade, é comum ver a água mais turva e sentir o cheio característico.


Em 2020 e 2021, praticamente não houve esse registro, em parte também porque o cheiro de queimado e a fumaça ocuparam espaço predominante.


Agora em 2022, a partir do fim de abril, as características mais marcantes passaram a ser percebidas em Corumbá, Ladário e também em Porto Murtinho.


Enquanto isso, na região mais ao norte, sentido nascente do Rio Paraguai, a decoada não se mostrou exatamente marcante, conforme apurado com moradores de comunidades próximas a Cáceres (MT).


Todo o oxigênio dissolvido acaba sendo reduzido. Em um ambiente normal, essa quantidade de oxigênio está entre cinco e sete ml/l e, no caso medido, essa oxigenação está chegando a um ml/l, em alguns locais deu 0,8 ml/l, podendo chegar a zerar todo o oxigênio da água. Então acontece de vermos uma água negra, com odor muito forte. Sem oxigênio, os peixes vêm para a superfície. Estamos observando muitos peixes aqui, muitos já mortos e outros ainda vão morrer. Há peixes lisos, de couro, arraias”, apontou o gestor de áreas do Instituto do Homem Pantaneiro (IHP), Geovani Tonolli.


O monitoramento sobre o comportamento de peixes agora na decoada é uma medida que se acrescenta a outro estudo que está sendo feito desde janeiro.


O IHP, a Associação Corumbaense das Empresas Regionais de Turismo (Acert), ICMBio e Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Peixes Continentais (Cepta) desenvolvem uma pesquisa para identificar como a modalidade do pesque e solte gera impacto na população desses animais.


No setor turístico, o resultado desse trabalho é esperado para sinalizar medida sustentável que a modalidade da pesca esportiva gera no Pantanal, conforme as empresas defendem na região de Corumbá.


Com esse contexto de condições menos habituais do que era percebido em ciclo de cheia registrado antes de 2020, aliado ao fato da mudança climática em todo o bioma, com o aumento médio de 2º C na temperatura no Pantanal, o cenário atual está recebendo acompanhamento mais de perto de biólogos pesquisadores do Instituto do Homem Pantaneiro em toda a região do Amolar.


Essa avaliação está focada tanto na medição do nível de oxigênio da água, bem como no nível de mortandade de peixes em áreas que inundaram.


A estiagem prolongada e as mudanças climáticas afetam diretamente os locais onde os peixes reproduzem-se.


A nossa principal preocupação e atenção com esse fenômeno que vem ocorrendo na Serra do Amolar, da decoada, é com relação à intensidade que isso vai ocorrer. A gente precisa monitorar para avaliar se os peixes já estão morrendo. A gente sabe que estamos passando por um período longo de seca, e isso pode ter influenciado na reprodução dos peixes. Vem uma seca longa, agora a dequada, isso pode impactar diretamente na nossa população de ictiofauna do nosso Pantanal”, detalhou o biólogo Sérgio Barreto, do IHP.


As conclusões a serem obtidas nos próximos meses devem ajudar a balizar planejamento de políticas públicas com impacto não só ambiental, mas para a economia, com repercussão no turismo de pesca.


Esse setor econômico está concentrado em Corumbá, com barcos-hotéis e a previsão de 25 mil turistas para visitar a cidade só neste ano. A pesca como turismo também ocorre em Miranda, onde há registro da decoada, de acordo com estudos da Embrapa Pantanal; além de Coxim, onde o evento tem praticamente nenhum registro.


No Norte do Rio Paraguai, na região de Cáceres, os eventos de decoada são menos frequentes e de baixa intensidade e curta duração [um a dois meses], se comparados ao trecho médio e inferior do Rio Paraguai, entre Amolar e Porto Murtinho. A decoada é mais intensa a partir da Estação Ecológica Taiamã”, detalhou estudo da Embrapa Pantanal, elaborado por Márcia Divina de Oliveira, Débora Fernandes Calheiros e Carlos Roberto Padovani. O grupo faz parte do Observatório do Pantanal.


No Rio Paraguai, em Corumbá, com maior número de registros, foi possível identificar eventos de decoada com duração de até cinco meses. Na parte sul, destaca-se o Rio Nabileque, um braço do Rio Paraguai”, segue o estudo.


Evento natural típico na planície de inundação com abundância de vegetação herbácea.


No Pantanal, o fenômeno se intensifica pelo efeito de sua extensa planície. O processo de decomposição de vegetação submersa causa baixo oxigênio e há emissão de dióxido de carbono e metano (o que causa o odor forte).


A primeira descrição sobre a decoada no Pantanal de Mato Grosso do Sul foi em 1977, após um período grande de seca, registrada no início da década de 1970.


Com informações do Correio do Estado

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